Sobre versificação em língua portuguesa (10)

Vamos agora abordar os versos hendecassílabos, ou seja, de onze sílabas métricas (contadas em português até a última sílaba tônica de cada linha). Este verso é de origem galego-portuguesa, ou seja, é natural de nossa língua. Tradicionalmente, é acentuado na quinta e décima – primeira sílabas ou na segunda, quinta, oitava e décima – primeira. É claro que ele não pode competir com o decassílabo em termos de popularidade entre poetas e leitores, mas tem seu valor histórico marcado. Vamos observar dois poemas de Casimiro de Abreu e Castro Alves.

O primeiro é Minha Mãe, de Casimiro de Abreu (1837-1860), citado no segundo artigo desta série:

”Da pátria formosa distante e saudoso,
Chorando e gemendo meus cantos de dor,
Eu guardo no peito a imagem querida
Do mais verdadeiro, do mais santo amor:
— Minha Mãe! —

Nas horas caladas das noites d’estio
Sentado sozinho co’a face na mão,
Eu choro e soluço por quem me chamava
— “Oh filho querido do meu coração!” —
— Minha Mãe! —

No berço, pendente dos ramos floridos
Em que eu pequenino feliz dormitava:
Quem é que esse berço com todo o cuidado
Cantando cantigas alegre embalava?
— Minha Mãe! —

De noite, alta noite, quando eu já dormia
Sonhando esses sonhos dos anjos dos céus,
Quem é que meus lábios dormentes roçava,
Qual anjo da guarda, qual sopro de Deus?
— Minha Mãe! —

Feliz o bom filho que pode contente
Na casa paterna de noite e de dia
Sentir as carícias do anjo de amores,
Da estrela brilhante que a vida nos guia!
— Uma Mãe! —

Por isso eu agora na terra do exílio,
Sentado sozinho co’a face na mão,
Suspiro e soluço por quem me chamava:
— “Oh filho querido do meu coração!” —
— Minha Mãe! —“

***
De Castro Alves (1847-1871), grande poeta do romantismo brasileiro, conhecido como o “Poeta dos Escravos”, por sua defesa dos negros em obras como Os Escravos (publicada em 1883) e Navio Negreiro (1869), trazemos Crepúsculo Sertanejo:

“A tarde morria! Nas águas barrentas
As sombras das margens deitavam-se longas;
Na esguia atalaia das árvores secas
Ouvia-se um triste chorar de arapongas.

A tarde morria! Dos ramos, das lascas,
Das pedras, do líquen, das heras, dos cardos,
As trevas rasteiras com o ventre por terra
Saíam, quais negros, cruéis leopardos.

A tarde morria! Mas funda nas águas
Lavava-se a galha do escuro ingazeiro…
Ao fresco arrepio dos ventos cortantes
Em músico estalo rangia o coqueiro.

Sussurro profundo! Marulho gigante!
Talvez um — silêncio!… Talvez uma — orquestra…
Da folha, do cálix, das asas, do inseto…
Do átomo — à estrela… do verme — à
[floresta!…

As garças metiam o bico vermelho
Por baixo das asas, — da brisa ao açoite —;
E a terra na vaga de azul do infinito
Cobria a cabeça co’as penas da noite!

Somente por vezes, dos jungles das bordas
Dos golfos enormes, daquela paragem,
Erguia a cabeça surpreso, inquieto,
Coberto de limos — um touro selvagem.

Então as marrecas, em torno boiando,
O vôo encurvavam medrosas, à toa…
E o tímido bando pedindo outras praias
Passava gritando por sobre a canoa!…”

Do livro: A Cachoeira de Paulo Afonso (1876)

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One Response to “Sobre versificação em língua portuguesa (10)”

  1. [...] Bethânia cantando Castro Alves e Caetano Veloso Conforme dissemos em nosso artigo décimo sobre versificação em língua portuguesa, Castro Alves foi chamado de “Poeta [...]

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