Sobre versificação em língua portuguesa (12)
Há em nossa língua formas tradicionais de composição poética. Vamos nomear e exemplificar cada uma delas. As mais famosas são o soneto, a canção e a balada. Estas duas últimas vivem hoje principalmente através dos letristas e compositores da música popular.
E o soneto, mesmo sendo uma forma ultrapassada, como diriam os modernistas, sempre encontrará algum poeta romântico que vai querer expressar seus sentimentos através dele. Mas há outros tipos de composição poética, menos conhecidos, como o madrigal, a elegia, a égloga, o rondó, a ode e o epigrama.
Começamos então por uma brevíssima alusão histórica ao soneto. Especialistas garantem que Giacomo Lentini, que viveu e escreveu na segunda metade do século XIII, é o verdadeiro criador do soneto, embora outros afirmem que tenha sido inventado por Girard de Borneuil, um trovador francês de Limoges, para só daí essa forma poética ser transportada à Itália.
Lendas ou histórias à parte, é de conhecimento comum que o mais antigo e famoso sonetista foi Francesco Petrarca, que escreveu 317 sonetos (TREVISAN, 2001).
Muitos grandes poetas de muitas nacionalidades escreveram sonetos, como por exemplo, Dante, Shakespeare, Mallarmé, Quevedo, Cervantes, Camões, Sá de Miranda, Gregório de Matos, Cláudio Manoel da Costa, Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Cruz e Souza, Augusto dos Anjos, Mário Quintana, Vinícius de Moraes e muitos outros.
O soneto é composto de 14 versos, distribuídos em duas quadras, ou quartetos, e dois tercetos, rimados ou não. Há muitos sonetos famosos em nossa língua, como o Soneto da Fidelidade, de Vinícius de Moraes, ou o Amor é Fogo que Arde Sem se Ver, de Luís de Camões.
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De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
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Amor é fogo que arde sem se ver
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?