Sobre versificação em língua portuguesa (2)
Conforme falamos na parte teórica, os versos em português variam de uma a doze sílabas métricas, ou poéticas, contadas até a última sílaba tônica. Já os versos de mais de doze sílabas são uma combinação entre versos menores. Há também quem advogue que não devemos contar as sílabas poéticas até a última tônica, mas sim todas as sílabas do verso. No nosso caso, preferimos seguir a tradição e contar as sílabas até a última tônica.
Como eu disse anteriormente, acontecem fusões entre sons no interior dos versos (sinérese), ou elisões ou incorporações, bem como a diérese, que é o oposto, ou seja, sons que se separam na hora da leitura ou emissão. Esses efeitos dependem também da intenção do poeta ou simplesmente da emissão de sons por quem está lendo ou recitando. Um aspecto da versificação que não falei antes é o ritmo, que é fundamental na poesia. Com base no que falamos, o ritmo é a impressão causada pela regularidade ou repetição dos padrões de acentuação nos versos (essa repetição de padrões rítmicos é o que diferencia a poesia da prosa, que é a nossa fala comum, e, na escrita, o que expressamos em textos como romances, contos, ensaios, dissertações em geral, etc.) Há poetas que gostam de marcar bem o ritmo e outros que não.
Vamos então à prática, que é a apresentação de exemplos e a escansão, ou seja, a contagem das sílabas.
Começamos com os versos monossílabos ou monossilábicos, ou seja, versos de uma única sílaba poética, que obviamente são raríssimos.
Bernardo Guimarães (1825-1884), poeta e romancista, escreveu uma balada chamada Gentil Sofia, na qual ele coloca versos monossílabos em eco (em negrito) ao verso anterior; esta é a primeira estrofe (agrupamento de versos, rimados ou não) da balada (composição em geral em versos de sete ou oito sílabas, em estrofes de oito versos, com quadras intercaladas; hoje em dia uma balada é mais uma canção ou um poema amoroso):
“Fia já minha Sofia,
Fia
“Enquanto eu faço esta ceia,
Eia!
Estás hoje com tamanha
Manha,
“Que não sais dessa janela;
Nela
“Queres ver os estudantes
Antes
“Do que acabar depressa
Essa
“Tarefa, que aí fica à banda,
Anda!…
“Pega já no teu serviço;
Isso!…
“Antes que as ventas te esbarre!
Arre!…”
***
Outro exemplo nos é dado por Cassiano Ricardo (1895-1974), jornalista, poeta e ensaísta brasileiro, nestes versos:
“Rua
torta
Lua
morta.
Tua
porta.”
***
Para exemplificar os versos de duas sílabas, ou dissílabos, trazemos Casimiro de Abreu (1837-1860), poeta romântico brasileiro, com o famoso poema “A Valsa” (notem os versos em negrito, nos quais ocorre elisão ou fusão de sons para que os versos tenham apenas duas sílabas até a tônica final, ou seja, a sílaba final acentuada; há versos que terminam com palavras proparoxítonas, neste caso, os dois em pálida; como essas palavras são incomuns ou estranhas, ou seja, esdrúxulas, os versos que assim terminam também o são; nos outros casos, os versos podem ser agudos, se a última sílaba gramatical for a sílaba tônica, ou seja, aguda, como em palavras como sol, visão, caju, sul, palavras oxítonas; ou graves, se a penúltima sílaba gramatical for a sílaba tônica, como nos casos de palavras como parede, cadeira, tenda, prata, ouro, palavras paroxítonas; em resumo, os versos são classificados de agudos, graves ou esdrúxulos de acordo com a palavra final deles):
“Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Co’as faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila,
Serena,
Sem pena
De mim!
*
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!…
- Não negues,
Não mintas…
- Eu vi!…
*
Valsavas:
- Teus belos
Cabelos,
Já soltos,
Revoltos,
Saltavam,
Voavam,
Brincavam
No colo
Que é meu;
E os olhos
Escuros
Tão puros,
Os olhos
Perjuros
Volvias,
Tremias,
Sorrias,
P’ra outro
Não eu!
*
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!…
- Não negues,
Não mintas…
- Eu vi!…
*
Meu Deus!
Eras bela
Donzela,
Valsando,
Sorrindo,
Fugindo,
Qual silfo
Risonho
Que em sonho
Nos vem!
Mas esse
Sorriso
Tão liso
Que tinhas
Nos lábios
De rosa,
Formosa,
Tu davas,
Mandavas
A quem ?!
*
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!…
- Não negues,
Não mintas,..
- Eu vi!…
*
Calado,
Sozinho,
Mesquinho,
Em zelos
Ardendo,
Eu vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!
Eu triste
Vi tudo!
Mas mudo
Não tive
Nas galas
Das salas,
Nem falas,
Nem cantos,
Nem prantos,
Nem voz!
*
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!…
- Não negues
Não mintas…
- Eu vi!
*
Na valsa
Cansaste;
Ficaste
Prostrada,
Turbada!
Pensavas,
Cismavas,
E estavas
Tão pálida
Então;
Qual pálida
Rosa
Mimosa
No vale
Do vento
Cruento
Batida,
Caída
Sem vida.
No chão!
*
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!…
- Não negues,
Não mintas…
Eu vi!”
***
Para ler o primeiro artigo desta série, clique aqui.
Para ler o próximo, aqui.
[...] Gratuito de Português Descobrindo o prazer de aprender « Sobre versificação em língua portuguesa (2) Sobre versificação em língua portuguesa (4) [...]
[...] Descobrindo o prazer de aprender « Abertas inscrições para o ENEM Sobre versificação em língua portuguesa (2) [...]
[...] primeiro é Minha Mãe, de Casimiro de Abreu (1837-1860), citado no segundo artigo desta [...]