Sobre versificação em língua portuguesa (3)
Continuando com nossa exemplificação, vamos estudar agora versos trissilábicos, ou trissílabos. Há estudiosos do assunto que chamam o verso trissílabo de anapéstico, que seria em português um pé, ou parte de verso, com duas sílabas átonas e uma terceira tônica, ou duas breves e uma longa, em termos de duração ou quantidade (de som). A questão é que os versos em nossa língua não usam a duração das sílabas como base dos pés ou unidades rítmicas, como é o caso do latim e do grego. O próprio Ezra Pound, um dos maiores poetas do século XX, reconheceu a mudança da base quantitativa das línguas antigas para a base silábica (no português) ou acentual-silábica (no inglês). Particularmente, prefiro trabalhar com poesia em nossa língua com o que lhe é peculiar, ou seja, o metro tradicional com seus padrões de acentuação, em vez de dificultar ainda mais importando termos típicos da poesia de outras línguas, que devem ser estudados aplicados a elas. Como sempre, me alio a Pound para dizer: prestem atenção ao som do verso, para saber se a seus ouvidos ele soa bem.
A segunda estrofe do poema A Tempestade, de Gonçalves Dias (1823-1864), grande poeta romântico brasileiro, é o exemplo mais famoso desse metro em nossa língua. Para informação dos estudantes, este poema de Gonçalves Dias mostra a capacidade desse poeta, que o compôs utilizando a variação métrica de versos dissílabos até versos hendecassílabos (as estrofes começam em dissílabos e vão aumentando o metro até o hendecassílabo, e depois retornam ao dissílabo). Incluo aqui as duas estrofes em trissílabos:
“Vem a aurora
Pressurosa,
Cor de rosa,
Que se cora
De carmim;
A seus raios
As estrelas,
Que eram belas,
Tem desmaios,
Já por fim.”
[...]
“Tal a chuva
Transparece,
Quando desce
E ainda vê-se
O sol luzir;
Como a virgem,
Que numa hora
Ri-se e cora,
Depois chora
E torna a rir.”
***
Incluímos então mais duas estrofes de A Tempestade de Gonçalves Dias para mostrar versos tetrassílabos ou quadrissílabos, acentuados na primeira sílaba (raramente, caso do verso “Lá no horizonte”, abaixo), na segunda (em geral) e, claro, na quarta:
“O sol desponta
Lá no horizonte,
Doirando a fonte,
E o prado e o monte
E o céu e o mar;
E um manto belo
De vivas cores
Adorna as flores,
Que entre verdores
Se vê brilhar.”
[...]
“Nas águas pousa;
E a base viva
De luz esquiva,
E a curva altiva
Sublima ao céu;
Inda outro arqueia,
Mais desbotado,
Quase apagado,
Como embotado
De tênue véu.”
***
Outros exemplos de tetrassílabos:
O Beijo da Pessoa Amada, poema de minha autoria (do livro Canto do Amor Em Si), do qual coloco duas estrofes:
“beber do amor
o doce mel
desfaz a dor
conduz ao céu
-
sentir o lábio
do ser amado
sabor suave
de ser gostado”
***
Artigo anterior sobre noções de versificação em língua portuguesa.
Próximo artigo da série.
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