Sobre versificação em língua portuguesa (4)

Neste artigo sobre noções de versificação em língua portuguesa brasileira, vamos abordar os pentassílabos, ou versos pentassilábicos, também chamados popularmente de redondilha menor. A acentuação recai normalmente na segunda sílaba e, claro, na quinta. O poeta que vem nos mostrar sua maestria também nessa medida poética é Gonçalves Dias, desta vez com a seção IV do seu I-Juca Pirama, que é um poema épico em estilo indianista. Este poema relata a estória de um índio Tupi que é aprisionado pelos Timbiras, e que será sacrificado por estes. Nesta parte do poema, o guerreiro pede por sua vida porque prefere manchar sua honra de guerreiro para poder cuidar do pai. Acredito que não é preciso separar graficamente as sílabas, pelo fato do ritmo estar super bem marcado neste poema.

“Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci;
Guerreiros, descendo
Da tribo tupi.

Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci;
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi.

Já vi cruas brigas,
De tribos imigas,
E as duras fadigas
Da guerra provei;
Nas ondas mendaces
Senti pelas faces
Os silvos fugaces
Dos ventos que amei.

Andei longes terras
Lidei cruas guerras,
Vaguei pelas serras
Dos vis Aimoréis;
Vi lutas de bravos,
Vi fortes – escravos!
De estranhos ignavos
Calcados aos pés.

E os campos talados,
E os arcos quebrados,
E os piagas coitados
Já sem maracás;
E os meigos cantores,
Servindo a senhores,
Que vinham traidores,
Com mostras de paz.

Aos golpes do imigo,
Meu último amigo,
Sem lar, sem abrigo
Caiu junto a mi!
Com plácido rosto,
Sereno e composto,
O acerbo desgosto
Comigo sofri.

Meu pai a meu lado
Já cego e quebrado,
De penas ralado,
Firmava-se em mi:
Nós ambos, mesquinhos,
Por ínvios caminhos,
Cobertos d’espinhos
Chegamos aqui!

O velho no entanto
Sofrendo já tanto
De fome e quebranto,
Só qu’ria morrer!
Não mais me contenho,
Nas matas me embrenho,
Das frechas que tenho
Me quero valer.

Então, forasteiro,
Caí prisioneiro
De um troço guerreiro
Com que me encontrei:
O cru dessossêgo
Do pai fraco e cego,
Enquanto não chego
Qual seja, – dizei!

Eu era o seu guia
Na noite sombria,
A só alegria
Que Deus lhe deixou:
Em mim se apoiava,
Em mim se firmava,
Em mim descansava,
Que filho lhe sou.

Ao velho coitado
De penas ralado,
Já cego e quebrado,
Que resta? – Morrer.
Enquanto descreve
O giro tão breve
Da vida que teve,
Deixai-me viver!

Não vil, não ignavo,
Mas forte, mas bravo,
Serei vosso escravo:
Aqui virei ter.
Guerreiros, não coro
Do pranto que choro:
Se a vida deploro,
Também sei morrer.”

***

Acrescento duas estrofes de um poema meu em pentassílabos: O Amor Não Tem Forma (vale a pena ler o poema inteiro, para ver alguns versos em que é preciso fazer elisão para manter as cinco sílabas poéticas, assim como a mudança de tonicidade para manter a acentuação padrão pentassilábica, como nos versos das estrofes abaixo).

O amor não tem forma;

o amor não tem norma.

Um peito que ama,

amor não deforma.

xxx

O amor não reclama;

o amor não tem trama.

Poema de dor,

amor não declama.

[...]

O amor não faz mal;

é incondicional;

no mar fundo mora,

coração-coral.

***

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