Sobre versificação portuguesa / brasileira
Caros leitores e estudantes em geral, como falei no artigo sobre o Enem, nosso blog traz informações sobre nossa língua de várias maneiras, incluindo gramática, vocabulário, redação e poesia. Tratarei a versificação em língua portuguesa em vários artigos. Neste primeiro, escrevo sobre a parte teórica, abordando os tipos de versos que existem em nossa língua. Nos próximos, darei exemplos de cada tipo de verso.
Em português, os versos tem uma base silábica, enquanto que em inglês eles tem uma base acentual-silábica, que é baseada nas sílabas tônicas e átonas e no número de sílabas de cada pé (unidade poética / sonora dos versos) e suas variações. A poesia em línguas como latim e grego usa verso quantitativo: sílabas longas e breves, o que significa que ela é baseada na duração, a extensão de tempo necessária para pronunciar cada sílaba. Em português, os versos tem um número fixo de sílabas poéticas por linha, contadas até a última sílaba tônica de cada linha, com padrões de acentos regulares. Os versos variam de uma a doze sílabas, assim definidos: monossílabos (ou monossilábicos), dissílabos (ou dissilábicos, e assim por diante), trissílabos, tetrassílabos (ou quadrissílabos), pentassílabos, hexassílabos, heptassílabos, octossílabos, eneassílabos, decassílabos (há o decassílabo heróico ou branco, que não é rimado), hendecassílabos e dodecassílabos, ou alexandrinos. Versos mais longos, normalmente de dez sílabas poéticas em diante, tem uma cesura (ou pausa) que divide os versos em duas partes chamadas hemistíquios, ou metades de versos, que podem ser marcados por pontuação ou somente pela pausa entre eles.
Os versos de cinco (com o acento na quinta sílaba e em alguma outra para apoio fônico) e sete sílabas (com acentos variando entre a segunda, terceira, quarta, quinta e naturalmente sétima sílaba), em português, são chamados de redondilhas (TREVISAN, 2001, p.172), e representam as formas mais populares de poesia (redondilha menor e maior, de acordo com o número de sílabas métricas; a palavra vem do espanhol redondilla, uma forma de estrofe que consiste em quatro linhas, normalmente de oito sílabas cada, rimando em abba; em português, temos uma maneira diferente do espanhol de contar as sílabas: todas as sílabas são contadas na escansão (de escandir, ou seja, decompor um verso em suas sílabas métricas) em espanhol, por isso que a redondilha maior é octossilábica para eles e heptassilábica em nosso vernáculo). A redondilha maior é a mais popular das duas, pois seu ritmo encontra fácil expressão em nossa língua. Poderíamos dizer que a poesia escrita em versos de número ímpar de sílabas é mais lírica e aquela escrita em versos com número par de sílabas poéticas é mais recitativa, mais prosaica, embora isto não seja algo fixo.
Em português, de acordo com Bechara, um gramaticista tradicional, “[...] a quantidade [isto é, a duração] é pouco sentida e não exerce notável papel na caracterização e distinção dos vocábulos e formas gramaticais” (1989, p.53). Apenas alongamos as palavras para ênfase. Na nossa linguagem poética as “unidades fundamentais do ritmo” são as sílabas (TREVISAN, 2001, p.67). Poeticamente falando, podemos chamar essas sílabas de “sons” para distinguir sílabas poéticas de sílabas gramaticais. Isto é útil porque em poesia há elementos tais como sinérese: a contração de duas vogais em um ditongo; e diérese: no som, é uma pausa, mas lingüisticamente é uma marca colocada sobre a segunda de duas vogais adjacentes para indicar que elas devem ser pronunciadas separadamente; é como transformar um ditongo em um hiato (exemplo: pronunciar a palavra cuidado desta forma cu-i-da-do). Desta forma, Trevisan define um “princípio básico” para a poesia em português em sílabas e seu desenvolvimento em torno de um “centro dinâmico” que é o “acento tônico”: “O verso português tem como obrigatoriedade os acentos tônicos e o número de sílabas. São eles que formam os agrupamentos rítmicos [...]” (TREVISAN, 2001, p.68) dos quais a poesia vive; na realidade, sua base material.
Naturalmente, em nossa lingual temos entonação, ou entoação, como em qualquer outra língua, que é necessária para expressar o pensamento / sentimento do falante. Bechara afirma que “Em português, [...] as orações se caracterizam pela entoação, isto é, pela maneira com que são proferidas dentro de certa cadência melódica” (BECHARA, 1989, p.194). Assim as orações são articuladas de uma maneira que a “parte final de uma oração é sempre marcada por algum dos tipos de entoação” que existem na língua (1989, p.194). Normalmente, as palavras em nossa língua materna tem sílabas tônicas e elas são obviamente importantes para a pronúncia correta. Em poesia, elas são usadas para marcar os acentos em combinações com o número de sílabas do metro que está sendo usado. Para fazer o verso soar o mais natural possível, é necessário fazer com que a sílaba tônica coincida com o acento poético dentro do metro escolhido.
Bilac e Passos[1] (1930, p.37), em seu Tratado de Versificação, definem verso, ou melhor, “metro“, como “o ajuntamento de palavras, ou ainda uma só palavra, com pausas obrigadas e determinado número de sílabas, que redundam em música” (grafia atualizada). Os dois poetas parnasianos, famosos por sua luta pela exatidão de forma e adesão aos temas clássicos que resultou em seu desapego pelos seus assuntos, aconselhavam que “em português, mais que em qualquer outra língua, [...] se cultivam, o que se entende por sílabas e por pausas” (grafia atualizada). Esta escola poética precedeu o Modernismo no Brasil. Embora esses poetas fossem considerados pelos modernistas como antiquados, o que eles dizem sobre o sistema poético de nossa língua é verdadeiro. No que tange a versos livres, também chamados de versos brancos, eles se referem a versos não rimados ou que não obedecem à metrificação tradicional, ou que a superam. Entretanto, como diziam grandes poetas, como Ezra Pound e T.S. Eliot, não existem versos livres para um poeta, pois ele precisa trabalhar os versos até que eles soem de forma harmônica ao ouvido. Pound dizia, no sentido de desenvolver a audição poética, para prestar atenção ao som do verso, para podermos saber se é um bom verso ou não. Mesmo grandes poetas revolucionários, como Oswald de Andrade e Walt Whitman, introdutores do verso livre no Brasil e nos Estados Unidos, tiveram que conhecer toda a poesia tradicional para poder chegar além dela em termos de versificação ou metrificação poética.
(Fonte: adaptado da tese de Gentil Saraiva Junior sobre tradução poética.)
[1] Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865-1918) foi o poeta mais aclamado da escola Parnasiana no Brasil, tendo ganhado um concurso para “Príncipe dos poetas brasileiros” em 1907. Sebastião Cícero Guimarães Passos, jornalista e poeta (1867-1909), era amigo de Bilac. Ambos foram membros fundadores da Academia Brasileira de Letras, estabelecida em 20 de julho de 1897, cujo primeiro e perpétuo presidente é Machado de Assis (1839-1908), o mais importante romancista, ensaísta e contista do Brasil, historicamente falando, e que também foi poeta e dramaturgo.
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Confira o segundo artigo da série sobre versificação em língua portuguesa.
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